Fenomenologia da Prática Clínica em Gestalt-Terapia

A fenomenologia descreve aquilo que se passa, o que se mostra, ela é a descrição das formas como se passa a conhecer algo. É a busca de entendimento baseada no que é óbvio ou revelado pela situação e não na interpretação do observador. A exploração fenomenológica objetiva uma descrição cada vez mais clara e detalhada do que É, e não enfatizar o que seria, poderia ser, pode ser e foi.

A postura terapêutica em gestalt-terapia não é a de quem procura o outro, mas a de quem deixa que o outro apareça. Quando eu me abro para que o outro apareça estou fazendo contato. Contato significa estar diante do que é desconhecido, do que é novo. A porta de acesso do outro passa pelo desconhecido em nós, sentimentos e deliberações espontâneas (sensório-motora). A clínica da gestalt é uma clínica de co-existência. Co-existir é descentrar-se, é ser levado pelos caminhos que o outro abre (fluxo de awareness).

O papel do gestalt-terapeuta além de observar e facilitar o processo de experiência do cliente é de prestar atenção em aspectos da experiência do cliente, que podem estar sendo inibidos. Aspectos que estão fora da awareness atual são trazidos à awareness. Psicoterapia é contato e contato se dá quando posso disponibilizar meu foco para que o outro possa perceber o seu. É necessário awareness do fluxo figura-fundo Quando a figura é bem delineada com acesso ao fundo, a energia é fluida. Quando não há este fluxo saudável, as necessidades não são atendidas e formam gestalten incompletas (situações inacabadas).

O ato de awareness é sempre aqui e agora, embora o conteúdo possa ser de lá e então, é experenciar e saber o quê e como estou fazendo algo. Desta forma, o essencial é a vivência imediata, tal como é percebida, sentida corporalmente e até imaginada, assim como um processo que está acontecendo no aqui e agora.

Em gestalt-terapia a busca da compreensão é baseada no óbvio e não na interpretação, interpretar é projetar, é fazer o outro seu segundo domicílio. Fazer fenomenologia em gestalt-terapia é buscar através da experiência descrever a vivência sensorial usando awareness sensorial para chegar a awareness reflexiva.

Na prática da fenomenologia utiliza-se a redução fenomenológica, processo onde se busca a essência do fenômeno. A redução fenomenológica requer a suspensão das atitudes, crenças, teorias do psicoterapeuta, é colocar em suspenso o conhecimento das coisas do mundo exterior a fim de concentrar-se a pessoa exclusivamente na experiência em foco, porque esta é a realidade para ela. Assim, na fenomenologia usa-se a descrição do fenômeno e não a explicação deste, a predominância do como sobre o porquê.

A gestalt-terapia propõe que, em vez de explicar o comportamento do cliente, o terapeuta pode ajudá-lo na descrição do mesmo, assim o próprio cliente vai dando sentido às suas vivências. Quando existe a descrição ao invés da explicação, o foco fica sempre no presente, nem antes (buscando causas) nem depois (antecipando conseqüências), já que não é possível agir no passado ou no futuro, apenas no presente, no aqui e agora. Quando o psicoterapeuta trabalha com “o quê” e “como”, ele está entrando em contato direto com o fenômeno. As manifestações externas do cliente, por exemplo um choro, o colocam sempre a caminho do fenômeno, é a manifestação do ser, a busca das necessidades e das essências, do objeto de trabalho na terapia.

O método de exploração na gestalt-terapia é através do campo fenomenológico, assim o suporte do cliente se torna mais firme e a awareness fica mais disponível, possibilitando que as escolhas sejam feitas com responsabilidade e autenticidade. Fenomenologicamente a mudança ocorre conhecendo e aceitando-se quem se é e como se é. Ser o que é e não tentar ser o que não é. O objetivo é aprender e usar este processo de awareness.

“Em termos de psicoterapia, tais reflexões nos levam a uma postura de paciência diante do fenômeno-cliente. Se se presta atenção ao cliente como um todo, ele se auto-revela, ou melhor, ele, em si, é uma auto-revelação permanente. Eu tenho de me postar diante dele e, a partir dele, descreve-lo compreensivamente para mim e para ele próprio. O fenômeno, enquanto essência que se revela, é o ponto de encontro da relação com. É aí que cliente e psicoterapeuta se fazem inteligíveis um para o outro, é aí que se encontram, como totalidade”. (Ribeiro, 1985, p.48, grifos do autor).

 

REFERÊNCIAS:

ORGLER, S.; LIMA, P.; D’ACRI, G. Dicionário de Gestalt-Terapia: Gestaltês. Summus Editorial, 2007.
RIBEIRO, J.P. Gestalt Terapia: Refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 1985.
MÜLLER-GRANZOTTO, M.J. & MÜLLER-GRANZOTTO, R.L. Fenomenologia e Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 2007.
YONTEF, G. Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em gestalt-terapia. Summus Editorial, São Paulo, 1998.

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