A Vida Como Processo

Quem assistiu ao filme Divã, brilhantemente estrelado por Lilia Cabral, pôde acompanhar seu processo psicoterapêutico e os reflexos desse em sua vida. Gostaria, então, de compartilhar com vocês o trecho do final do filme, do último dia desse processo, no qual ela relata ao seu analista:

“A gente procura um analista em busca de definições e depois de quase três anos juntos você descobre que não há definição…a vida é falta de definição…é transitória mesmo…agora entendi…não tem a portinha certa, não tem o mapa da mina…o mapa muda toda hora…a mina pode explodir a qualquer hora e a qualquer lugar…não é assim? Acho que eu vou te dar alta… (risos) porque eu nunca vou estar pronta…tudo o que eu preciso é conviver bem com meu desalinho, com a minha inconstância e com as surpresas que a vida traz…”

Achei esse trecho do filme fantástico…ele sintetiza, em palavras simples, o descobrimento da vida, o se permitir viver. Nós, seres humanos, somos seres em processo, tal qual, a Gestalt busca compreender fenomenologicamente o processo de como o indivíduo está funcionando no momento e para quê funciona daquele modo, a quais necessidades atende e quais necessidades deixa de atender. Desta maneira, como relatado no trecho acima, não existe o mapa da mina, nem a portinha certa. Considerando o ser humano um ser livre e responsável por suas escolhas, estando ele consciente de seu processo através da auto-regulação organísmica, o habitual se torna totalmente perceptível, quando necessário. Esse processo é chamado em Gestalt-Terapia de awareness, estar em contato com a própria experiência, com aquilo que é. (Yontef, 1998).

“Awareness total é o processo de estar em contato vigilante com os eventos mais importantes do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético. […] o contato com awareness gera totalidades significativas novas e, portanto, é em si a integração de um problema” (Idem, Ibid, p.31).

É muito comum, em psicoterapia, escutar o paciente dizer: “Esse assunto eu já sei, eu já estou consciente”. Mesmo assim, nada muda em relação a tal assunto. Então, o quê ele sabe? Porque não há mudança? O quê ele sabe, a nível cognitivo, é suficiente para a mudança?

Segundo Yontef (op.cit), a awareness é cognitiva, sensorial e afetiva. Assim, ela não é apenas “saber” (cognitiva). Através da awareness o organismo mobiliza sua agressividade de modo a contatar e rejeitar ou mastigar e assimilar o estímulo do meio. Uma awareness eficaz é baseada em e é energizada pela necessidade dominante atual do organismo. Isto quer dizer que o indivíduo deve estar consciente de sua situação atual e de como seu self está naquela situação. “A awareness é acompanhada por aceitação, isto é, o processo de conhecimento do controle, escolha e responsabilidade dos próprios sentimentos e comportamentos”. (Idem, Ibid, p. 31). Deste modo, auto-rejeição e awareness são conceitos totalmente antagônicos, uma vez que a auto-rejeição é a negação de quem se é.

Portanto, o objetivo da Gestalt-Terapia é o continuum da awareness, pois esta acontece sempre no aqui-agora mesmo que esteja ligado a fatos passados. Tudo está baseado na tomada de consciência. Yontef (op.cit) coloca que o neurótico não se permite ser aware de aceitar suas verdadeiras necessidades, e quando a awareness não se desenvolve, o indivíduo vai acumulando gestalten incompletas e conseqüentemente vivendo de uma maneira não saudável para si mesmo. Ciornai (1995) coloca que “quanto maior for a awareness de uma situação , maior as possibilidades de que o ser humano possa ser realmente sujeito de sua história ou, colocado em termos mais poéticos, artista de si mesmo, artista de sua própria existência”.

Por isso, em Gestalt-terapia não nos remetemos à cura como um produto acabado, como um ponto final, pois se nos olharmos em constante processo, este só tem fim com a morte. Remetemo-nos à cura como um processo, o qual através da awareness o indivíduo pode buscar soluções criativas no meio, e não mais estar alienado a este. Assim, “a cura não é um produto acabado, mas uma pessoa que aprendeu a desenvolver a awareness que necessita para resolver seus próprios problemas” (Perls apud Yontef, op.cit, p.72).

“Talvez seja este o aprendizado mais difícil: manter o movimento permanente, a renovação constante, a vida vivida como caminho e mudança”.
(Maria Helena Kuhner)

REFERÊNCIAS

Filme Divã. Diretor: José Alvarenga Jr. Brasil, 2009.
Site oficial do filme: < http://www.divaofilme.com.br>

CIORNAI, S. Relação entre criatividade e saúde em Gestalt-terapia. In: Revista do ITGT, nº 1, Goiânia, 1995.

YONTEF, G.M. Processo, Diálogo e Awareness. Ensaios em Gestalt-Terapia. Summus Editorial. São Paulo: 1998

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