As Polaridades de Cada Um

Todos nós em algum momento da vida, já escutamos a expressão de que os opostos de atraem ou se repelem, ou de que o amor e ódio andam juntos, que só conhece o doce quem já provou o amargo…pensar desta forma faz sentido para você?

Se pararmos para pensar um lado não existe sem o outro, por exemplo, o escuro não existe sem o claro, o feio não existe sem o bonito, o ruim sem o bom, o dia sem a noite, etc. Estes lados se complementam, e assim acontece com as pessoas, os pólos precisam estar integrados. Se a pessoa fica apenas em uma polaridade, e nunca se experimenta na outra, o organismo entra em desequilíbrio, a integração das polaridades que promove o equilíbrio e o funcionamento saudável do organismo.

Em Gestalt-terapia acreditamos que o ser humano é um conglomerado de forças polares que se inter-relacionam, ninguém é apenas uma coisa ou outra, todos temos vários pólos que estão relacionados. Toda pessoa “boa” tem um lado “ruim”, toda pessoa “tímida” tem um lado “extrovertido”, basta se saber nos dois pólos. Como assim? Acreditamos que quando a pessoa tem um comportamento fixo (rígido) ela está funcionando em apenas um dos pólos possíveis, pois enquanto ela está em uma polaridade, a outra polaridade está apagada, enquanto uma é figura, a outra é fundo em seu funcionamento. Nenhuma polaridade funciona sem a (s) outra (s).

[…] se quisermos ficar no centro do nosso mundo, seremos ambidestros – então veremos os dois pólos de todo evento. Veremos que a luz não pode existir sem a não-luz. A partir do momento em que existe igualdade, não se pode mais perceber. Se sempre existisse luz, vocês não experienciariam mais a luz. Deve haver um ritmo de luz e escuridão (PERLS, 1977, p. 35).

O indivíduo saudável é capaz de reconhecer e integrar a maioria de suas polaridades. No funcionamento não saudável, o indivíduo é incapaz de aceitar algumas partes de si mesmo, nega algumas polaridades, aqueles aspectos que pensa serem condenáveis. Esse não reconhecimento das polaridades pode gerar conflito interno no indivíduo. O conflito existe quando estamos diante de diferenças em oposição, ou seja, a clara percepção de desacordo O conflito promove uma “briga” entre as polaridades “clara e escura” da pessoa. Quanto mais a pessoa aprender sobre si mesma, quanto mais descobrir os segredos e mistérios que guarda dela mesma, mais saudável se tornará. A pessoa sente-se mais confortável consigo quando tem mais conhecimento de si. Quando posso me apropriar dos dois lados, posso escolher. Quando não trabalho com a projeção deste meu lado no meio, vou buscar no meio (outro) aquele lado que “falta” em mim.

Na prática da Gestalt-Terapia quem denomina as polaridades é o próprio cliente, a denominação do pólo vem de todos os vividos que a pessoa traz, de todos os seus dados, de seu fundo. Quando é o psicoterapeuta que o denomina, está usando o seu próprio referencial e não o do cliente, por isso é sempre necessário pedir ao cliente que nomeie as polaridades que ele percebe. Por exemplo, nem sempre a polaridade de amor vai ser o ódio, pode ser tristeza, raiva, angústia, etc.; cada cliente tem o seu referencial. Por isso é importante explorar o campo, o meio em que o cliente vive e qual polaridade faz sentido para ele naquele momento, qual o inverso daquilo, se ele já experimentou, se tem vontade de experimentar, qual é o ponto de partida (ponto-zero) para que ele olhe para estes dois pólos que, sem integração, ou percepção, o dividem.

Quanto mais o indivíduo experiencia os lados, os opostos, mais se ampliam e enriquecem suas possibilidades. A Gestalt-Terapia busca gerar a awareness e o contato do indivíduo com seus aspectos desintegrados, de forma a proporcionar o trânsito entre as polaridades e a integração da personalidade.

Para PERLS (2002), o pensamento em opostos está enraizado no organismo humano, a diferenciação em opostos é uma qualidade essencial da vida. Assim, podemos com mais facilidade reconhecer e transitar entre as polaridades.

Qualquer coisa se diferencia em opostos. Se formos capturados por uma dessas forças opostas, estamos numa cilada, ou, pelo menos, desequilibrados. Se ficamos no nada do centro zero, estamos equilibrados e temos perspectiva. Mais tarde percebi que este é o equivalente ocidental do ensinamento de Lao-Tsé. (PERLS, 1979, p. 76).

Poesia de Lao Tsé
Só temos consciência do belo,
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
Porquanto, o Ser e o Existir,
Se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O grande e o pequeno são complementares.

O alto e o baixo formam um todo.
O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.

Eis porque o sábio age,
Pelo não-agir.
E ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece.
Produz tudo e não fica com nada.

O sábio tudo realiza – e nada considera seu.
Tudo faz – e não se apega à sua obra.
Não se prende aos frutos da sua atividade.

Termina a sua obra,
E está sempre no princípio.
E por isso a sua obra prospera.

REFERÊNCIAS
STEVENS, J. O. (org). Isto é Gestalt. São Paulo: Summus, 1977
PERLS, F.S. Ego, Fome e Agressão.São Paulo: Summus, 2002.
PERLS, F. S. Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus, 1979.

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2 Comments

  1. Terezinha Moretti Gr
    Postado 25 de October de 2009 às 16:00 | Permalink

    Olá Goirdane, li seu artigo, e gostei muito.Polaridades foi um dos temas estudaos no curso de formação de ontem dia 25/10 no instituto de gestalt terapia.

  2. J.Edir Bragança
    Postado 12 de June de 2011 às 16:41 | Permalink

    Boa tarde Giordane, estou pesquisando alguns conceitos da gestalt para tentar defini-los de forma resumida. Gostei muito da forma apresentada, pois se utiliza de um linguagem simples sem perder a essência do significado. Parabéns.

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